Anos atrás, eu e Tatiana Wells discutimos a possibilidade de restaurar o site midiatatica.net e disponibilizar toda a produção armazenadas entre servidores e backups espalhados pelo Brasil, porque havíamos perdido a maior parte do conteúdo que tínhamos online por suspensão do serviço e falta de pagamento de um servidor privado, resultando num apagamento geral de seus arquivos. Na tentativa de estabelecer uma forma de trabalho remota que pudesse ajudar na organização dessa produção, listei todos os problemas encontrados no caminho dos 15 anos que essa produção se desenrolou: falta de atualizações de segurança e upgrades necessários, CMS obsoletos, spams, pagamento anual de domínio e servidor como fardo e responsabilidade apenas de um, backups físicos espalhados pelo país, e a comunicação das dificuldades de uma network, etc. Enfim, uma série de problemas que poderiam ser compartilhados e resolvidos como força tarefa conjunta.
Não restauramos os sites que pretendemos, não ainda, mas achamos um caminho comum e no mínimo mais de acordo para resolver os problemas que enfrentamos durante esse tempo, produzindo conteúdo cultural crítico para a internet brasileira. No entanto, re-contactando com as pessoas do passado que colaboraram neste processo, aos poucos fui percebendo uma paixão intermitente, que ainda sensibiliza e nos move a continuar produzindo informação nesta direção.
Quando estava concebendo o projeto Arquivos Táticos, mirava sobre dois modelos simples de arranjamento de publicações: o site midiatatica.net tinha uma página de publicações específica das redes se relacionava, editado e curado por Tatiana Wells; e desarquivo.org apresenta uma importante biblioteca empreendida por Cristina Ribas, focada na produção de pensamento e ações da arte brasileira atenta para um contexto político transformador. O intuito de juntar essas duas editorias, foi determinar um espaço onde esses documentos pudessem convergir para um cenário de produção intelectual da cultura de tecnologia e internet brasileira. Dessa forma juntamos nossos projetos e pesquisas para desenvolver o conteúdo para o website https://arquivos.midiatatica.net/
Antes do site nascer, havia uma estrutura virtual sendo discutida, uma cloud (hosting) gerenciada e configurada por Ricardo Ruiz e Tiago Bugarin, batizada como Njira Tech, para onde migramos todos os nossos conteúdos e projetos relacionados. Njira é um caminho – uma estrada, palavra de origem africana que aponta para possibilidades que se abrem a partir da encruzilhada. No caminho compartilhando o custo, o suporte técnico e espaço virtual compreendemos um problema antigo comum que para manter nossos arquivos vivos é necessário local – comunicação – pessoas empreendendo responsabilidade técnica específicas, e a melhor forma de resolver esses problemas é compartilhando a mesma infra estrutura.
Observando o cenário político brasileiro para os próximos anos, e entendendo a transformação de interesses e visões políticas na internet, teremos uma produção cultural radical cada vez menos presente e em desaparecimento. Nesses últimos anos, iniciativas como https://clandestina.io/ e https://vedetas.org/, ambas servidoras feministas, despertaram minha atenção para um futuro preocupado com uma internet que garanta serviço e espaço para uma comunidade sensível dentro deste ecossistema. Também é importante nesta construção visionar um cenário brasileiro a longo prazo, então mirar-se em projetos como https://riseup.net/, pode ser um caminho – ao examinar uma organização lançada há 20 anos atrás que estabeleceu serviços, linguagem e uma forma de comunicação generosa para uma comunidade de ativistas.
E um desejo para que os primeiros anos de vida da Njira se desenvolva uma forma organizacional que possibilite mais grupos e iniciativas relacionadas tenham seus lotes subsidiados para que seus quilombos se mantenham ativos. Aprender a enxergar um problema junto, quando a maior dos projetos não tem compreensão técnica para manter seu site no ar, e nem pouco seu custo individual e comunitário. E sabemos que podemos empreender uma vizinhança compartilhando e entendendo os recursos técnicos, a segurança, manutenção e o futuro da produção de um conhecimento crítico digital.
Giseli Vasconcelos